É necessário gerir o estoque?

Por Fernando Campanholo

"Tenho 18 mil de duplicatas para pagar na sexta, e hoje só tenho 380 reais no banco."


Foi essa a frase que ouvi de Elisa aos prantos ao telefone bem cedo da manhã em uma segunda-feira. Elisa é o nome que atribuirei à proprietária de uma grande loja de produtos agropecuários e linha pet, onde fiz um processo de mentoria empresarial.

A loja de Elisa era ampla, espaçosa e contava com uma grande variedade de produtos que eram espalhados de forma aleatória por todos os cantos. Prateleiras altas subiam do chão ao teto com artigos agrupados de tal forma que apenas Elisa e seu gerente conseguiam se entender, algumas vezes.

Elisa defendia fortemente a crença de que era necessário ter à disposição do cliente todos os itens que ele necessitasse e, com isso, além de produtos do seu foco de atuação, ela dispunha de artigos para pesca, camping, caça, materiais de construção, ferragens e alguns utensílios domésticos.

Se alguém entrasse em sua loja pedindo furadeira e não tivesse para vender, Elisa pedia ao cliente para voltar na semana seguinte, pois já teria disponível. Ela ia às compras e não comprava uma unidade, mas no mínimo 10 para aproveitar a melhor oferta do fornecedor. Essa sua atitude fazia seu estoque inflar com itens de baixo giro.

Eu já tinha conversado algumas vezes com a Elisa a respeito da importância de colocar o estoque em dia e ter uma gestão eficiente de suas mercadorias. Propus várias estratégias e ela sempre respondia “Não precisa, é pouco valor parado no estoque para eu me preocupar com isso, é melhor focar nas vendas e agradar meus clientes”.

Quando eu questionava quanto ela achava valia seu estoque, ela se esquivava e respondia sempre “Em torno de uns 150 mil no máximo”.

Após ouvir seus lamentos na ligação, remanejei minha agenda para visitá-la à tarde. Lá chegando, a primeira pergunta que fiz à Elisa foi “Quantos itens você acha que tem no estoque e que não são vendidos há mais de 60 dias?”. A resposta foi curta e direta: “Pouca coisa”.

Quando questionei o Augusto, nome fictício de seu gerente, a resposta foi totalmente diferente: “Deve ter uma infinidade de itens!”.

Imediatamente pedi ao Augusto que separasse 10 produtos de alto valor agregado, dos quais ele acreditasse que estivessem encalhados há mais de 60 dias. Pedi também que fizesse a contagem desses itens e verificasse o custo atual de cada um para que pudéssemos mensurar o total desses produtos. Antes que você questione o motivo pelo qual eu não pedi que olhasse no sistema, vou me adiantar dizendo que, como grande parte dos empresários que atendi, o sistema só era utilizado para emitir nota-fiscal, quando o cliente pedisse. Nem mesmo a informação correta do que era vendido era informada, então o único jeito era levantar tudo manualmente.

Cerca de meia hora depois, Augusto veio com a lista e o total me surpreendeu, assim como à Elisa: eram 12 mil reais apenas nesses 10 itens parados e dispersos em suas prateleiras, sabe-se lá há quanto tempo.

Sob protesto da Elisa, pedi que o Augusto fizesse o mesmo levantamento, agora com 100 itens, se possível até o final do dia, quando eu voltaria para propor uma ação concreta.

Curioso pelo resultado, retornei no final da tarde. Augusto, quando me viu, passou o valor antes mesmo de me cumprimentar, dizendo: Campanholo, você não vai acreditar, não terminei ainda e já calculei em torno de 60 mil de estoque parado.

Estava aí a solução! Propus à Elisa que liquidasse esses itens a preço de custo ou até um pouco menos, se necessário. Após uns 15 minutos de batalha, onde ela tentava me provar que perderia dinheiro fazendo isso, consegui convence-la matematicamente de que ela perde muito mais deixando dinheiro parado em mercadoria que não gira, pagando juros por contas em atraso e deixando de comprar itens de alto giro, sem contar seus sacrifícios pessoais.

Feita uma campanha em uma rádio de grande audiência anunciando algumas ofertas, mais a divulgação nas redes sociais e na vitrine, além do pagamento total das duplicatas, o saldo em caixa da semana foi de quase 20 mil reais.

Elisa adorou a estratégia da desova e a repetiu inúmeras vezes. Como ela entendeu a importância de gerir seu estoque de forma eficiente, a partir disso, suas compras foram equacionadas, equilibradas com as vendas e coerentes com o seu fluxo de caixa.

Na maioria das empresas que vendem mercadorias, o maior valor investido é no próprio estoque. E por incrível que pareça, alguns empresários desprezam sua gestão. Paradoxalmente, o controle do caixa é bem amarrado e não tem como alguém cometer desvios. Quando há, é rapidamente identificado. E o estoque fica largado e com livre acesso a todos.

Assim como Elisa, qualquer empresário que não adota uma gestão eficiente em seus estoques, está sujeito a uma série de transtornos, dentre eles posso destacar: roubo, falta de itens de giro, comprometimento do fluxo de caixa, estoque vencido, compras em excesso, sem contar o dinheiro ali parado.

E você, como tem cuidado de seu estoque?

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